Entender a denominação dos primeiros contrabaixos é crucial para que se aprenda a identificar as diversas categorias que hoje coexistem em nosso mundo. Primeiramente, dividiremos o instrumento nas categorias vertical
e horizontal. O contrabaixo acústico (upright acoustic bass ou double bass) é o primeiro exemplo de um instrumento vertical. Quando incluído nessa categoria, mas sem sua caixa de ressonância, ele é denominado upright bass. Na categoria horizontal, o baixo elétrico (electric bass) é o melhor exemplo que se pode indicar. Sem os sistemas de captação, o mesmo instrumento é chamado de baixo acústico (acoustic bass guitar). Na língua portuguesa, não há expressão equivalente para o upright bass sem corpo.
Para poder compreender essa nova revolução - uma máquina em que fosse possível amplificar o sinal - é preciso recuar no tempo, mais precisamente até os anos 30, quando os primeiros experimentos com a amplificação tiveram início. O tamanho do “gigante” (baixo acústico) já incomodava inúmeros observadores naquela época, muito por conta de sua baixa sonoridade. A primeira solução foi tentar reduzir o volume da caixa de ressonância acústica. A grande questão era que, se o contrabaixo acústico já possuía problemas de expansão sonora, uma eventual diminuição dessa peça implicaria em inventar uma outra forma de expandir o sinal.
Apesar de várias companhias na época terem elaborado diferentes soluções, a Regal Company, situada em Chicago, foi uma das primeiras a destacar-se com seu modelo de upright bass. Com o nome de Electrified Double Bass, a propaganda alardeava que esse equipamento era “o sonho de um baixista”.
Pois era leve, portátil e tinha a mesma escala do gigante. Poderia ser tocado com arco, dedos ou “slappado”, termo que era usado para a técnica de ragtime. O anúncio ainda mencionava um amplificador com altofalantes especiais, que poderiam reproduzir o verdadeiro som do contrabaixo. A Regal foi uma das primeiras empresas a testar o conceito de captadores de som (electric pick-up). O instrumento tinha um knob de volume acoplado em seu corpo. O upright da Regal teve um relativo sucesso de vendas, limitando-se a Chicago, capital e outras cidades do interior de Illinois.
Um dos modelos mais famosos foi construído pela Rickenbaker em 1936, desenhado por George Beauchamp. Denominado de Electro Bass-violone, foi concebido como uma única peça de metal, dotado de um captador magnético da própria marca (que tinha o carinhoso apelido de “pata de cavalo” – horseshoe – em virtude do seu tamanho). O interessante é que essa peça era acoplada diretamente no topo do amplificador (figura 2).
O som desse baixo singular pode ser conferido em uma gravação realizada em 1929 pela Columbia Records com Henry Allen & His Orchestra, “Feeling Drowsy”. Talvez essa música não tenha se tornado um hit, mas os especialistas apontam que ela foi, provavelmente, a primeira gravação de um baixo com sinal amplificado. Outro instrumento que, por seu ousado design, merece ser destacado é o Vega Electric Bass, construído em seis partes de madeira diferentes.
O braço e a escala possuíam tipos distintos de regulagem. Dois knobs (um de volume e outro de tonalidade) foram instalados do lado do braço do instrumento.O Vega ainda possuía um tripé para oferecer sustentação quando executado, com vários níveis de altura e uma escala apta a receber qualquer tipo de corda (as primeiras de contrabaixo acústico eram feitas de tripa de carneiro, passando posteriormente a ser fabricadas de metal). O equipamento ainda vinha com um amplificador de 18W que tinha uma borracha especial para evitar vibrações originadas de freqüências mais graves.
Em 1941, os Estados Unidos estavam na II Guerra Mundial. Por esse motivo, todas as pesquisas e o desenvolvimento de novos instrumentos ficaram momentaneamente paralisados em virtude disso. Aconteceu então a grande volta do contrabaixo acústico - é bom lembrar que estamos tratando da origem do sinal amplificado. Leo Fender concebeu o Precision Bass em 1951 como um instrumento que dependia de um sistema de amplificação para expandir o envio do sinal.
Então algo histórico ocorreu. No começo dos anos 30, um guitarrista chamado Paul H. Tutmarc construiu um upright vertical com um captador magnético em sua empresa, a Audiovox Manufacturing, localizada em Seatle. Embora esse instrumento nunca tenha sido produzido em escala industrial, representou um importante passo para o projeto de um outro ainda mais radical. Em 1935, Tutmarc teve uma brilhante idéia: construir algo mais leve, que pudesse substituir o upright construído anteriormente. “Por que não construir um pequeno baixo elétrico que pudesse ser tocado de forma horizontal, como uma guitarra?”, raciocinou Tutmarc.
Esse conceito tornouse realidade por meio do modelo Audiovox Model 736 Electronic Bass . Tratava-se de um instrumento com corpo sólido, trasteado, quatro cordas e equipado com um captador magnético, capaz de gerar som sem o auxílio de um amplificador independente. Ele tinha ainda um escudo feito de plástico e ponte de metal. A madeira usada era a mesma da produção dos upright. Seu preço? U$65. Os historiadores estimam que 100 modelos do Audiovox 736 foram construídos, sendo sua aceitação delimitada à área de Seatle. E aí surge uma grande questão.
Leo Fender sabia da existência do Tutmarc Audiovox 736 antes de iniciar a construção do seu lendário Precision? Em um artigo publicado na Vintage Guitar magazine, John Teagle especula sobre esse fato com Richard R. Smith, autor do livro Fender: The Sound Heard´s Round the World. Smith fez muitas entrevistas com Leo Fender e, em nenhuma delas, o lendário inventor referiu-se ao projeto Audiovox. “Em nenhum momento, Leo mencionou esse instrumento.
Ele e Don (Don Randall – sócio de Leo) tinham conhecimento do Rickenbaker Electro e do Gibson Mando Bass. Estou convencido de que tais fatos se deram em uma linha quase paralela de evolução, em épocas diferentes da história. O Audiovox foi uma grande idéia, mas era algo muito avançado para a época”, revelou Smith. O sinal do Precision precisava ser amplificado no ano de 1952. Assim, Clarence criou o revolucionário Fender Bassman, especialmente desenhado para a reprodução do som do contrabaixo.
Ele possuía um alto-falante Jensen de 15 polegadas e 26W de potência. Infelizmente, pouquíssimas pessoas especializadas no instrumento tiveram a honra de ouvir um Precision Bass plugado em uma máquina dessas. O designer Rich Lasner foi um desses iluminados. “Toquei em um Precision acoplado em um Bassman com médio volume e fiquei prestando muita atenção ao que ouvia. Era realmente um som de contrabaixo acústico”. A segunda parte da equação estava resolvida.
Texto gentilmente cedido por Nilton Wood
Rickenbaker - 1936